|
Em Portugal, os agentes funerários por vezes são mal vistos e mal tratados. Felizmente as pessoas começam a ter outro ponto de vista em relação ao serviço que estamos a prestar, há pessoas que nos respeitam e dão valor ao que fazemos, esforçando-se por entender a vida ingrata que levamos. Por vezes temos de por de lado a nossa dor e os nossos problemas para podermos tornar mais suportável a dor dos outros. Abdicando do tempo com a família, e também da vida social. Somos reduzidos a cumprir as tarefas que mais ninguém quer fazer, desde o preenchimento da declaração de óbito, à barba do falecido, as leis portuguesas impedem-nos de melhorar os nossos serviços. A morte não é um acontecimento bonito, ou feliz, ou simples. Na maior parte dos casos é feio, complicado, trágico. Não existe, em Portugal, uma única escola de formação. Somos forçados a procurar formação fora do país, para nos podermos especializar na nossa área, ou então aguardar por pequenos cursos de formação que se realizam esporadicamente. O agente funerário em determinadas ocasiões é motivo de desconfiança e de desprezo. Nós que “ganhamos a vida com a morte” teremos sempre esse estigma. Porém estamos impedidos de desenvolver os nossos serviços. Num país civilizado um agente funerário é um indivíduo que minimiza as consequências psicológicas, médicas e burocráticas da morte. É uma presença, senão desejada, útil. Aqui é um abutre. No Caso dos “Agentes”, mal apetrechados, tanto técnica, como moralmente, que funcionam às portas dos hospitais ou estão em casa à espera dos telefonemas das enfermarias, e que aparecem vestidos de fato de treino, ou calções e chinelos de praia, esses são autênticos vampiros. O “agente” muitas vezes é recebido com pedras na mão. A lei responsabiliza-nos pelo preenchimento de um extenso documento chamado declaração de óbito, em que contem perguntas que facilmente irritam ou hostilizam o familiar de um falecido, tal como “deixou herdeiros menores, sujeitos a inventário obrigatório ou providência tutelar, quantos?” e “deixou bens?” A reacção típica é a desconfiança, desconfiam que é o agente que está a querer saber a situação financeira da família do falecido, com o intuito de melhor poder explorar… Há situações em que se irritam, dizendo que não sabem. É preciso ver que somos indesejados. Quando aparecemos por termos sido chamados, é como se fossemos nós os anjos da morte. Em vez de sermos designados como pessoas habituadas ao caminho que vai da morte à última missa, somos vistos (salvo as excepções à regra) como meros mercadores de corpos. Há indivíduos que dizem que dá azar falar connosco. Como podem as pessoas levar a mal o facto de não sermos afectados pela morte, quando lidamos com “ela” todos os dias e faz parte do nosso quotidiano. Se por acaso, temos um gesto de mais à vontade, ou se falamos baixinho, somos logo criticados. O drama é o agente funerário ser encarado como alguém que vem tratar do morto e não como um profissional incumbido de assistir os familiares. Para mim, como para outros agentes funerários dignos desse nome, a morte é um instante, por onde espreita a verdade que pode haver numa vida. O que comove não é a morte nem a ausência de quem morre, mas sim a incapacidade de aceita-la (ou acreditar nela) de quem fica. Nós não somos pessoas frias como pensam, apenas aprendemos a aceitar a morte como mais uma etapa da vida. À qual nenhum de nós pode fugir.
|